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Metalúrgicos recorrem ao setor de serviços

Diário do Grande ABC - SP - ECONOMIA

O hoje porteiro de 29 anos Denilson Gonçalves, morador de Santo André, em 2010 foi demitido de uma fabricante de sistemas automotivos, onde atuava como prensista. O motivo para a dispensa foi a redução nos custos – à época, o País sofria os reflexos da crise financeira internacional, que provocou a suspensão de investimentos e de pedidos.

Denilson ganhava, por mês, R$ 1.600, tinha PLR (Participação nos Lucros e Resultados), convênio médico para ele e a mulher por R$ 15 mensais, ônibus fretado, restaurante dentro da empresa e subsídio de 50% para realizar cursos técnicos. Para conseguir o cargo, ele antes desempenhou a função de auxiliar de produção em outra metalúrgica e frequentou cursos de metrologia e operador de empilhadeira e de ponte rolante, entre outros. Mesmo assim, até hoje não conseguiu voltar a atuar como metalúrgico. “Tentei voltar para a indústria, mas não consegui. Há poucas ofertas e, muitas vezes, com salário menores”, diz. “Meu sonho é trabalhar em uma montadora.”

Quando saiu da sistemista, Denilson fez curso de instrutor teórico técnico para trabalhar em uma auto-escola, onde permaneceu por um ano. O salário não era fixo e girava em torno de R$ 1.000. Atualmente, como porteiro, recebe R$ 917, vale refeição de R$ 10,80 por dia e cesta básica de R$ 78.

A mudança de área profissional é a realidade de muitas pessoas no Grande ABC que, sem oportunidade na indústria, por conta das demissões, do fechamento e da migração de empresas para outras cidades, vêm alterando o perfil da região, antes essencialmente industrial.

Dados da PED (Pesquisa de Emprego e Desemprego), do Seade/Dieese, apontam que, pela primeira vez, o volume de trabalhadores da região alocados no setor de serviços ultrapassou 50% do total, de 1,2 milhão de pessoas.

De 2011 até o ano passado, o montante subiu de 47,2% para 51,1%, com 631 mil profissionais. O total de funcionários da indústria, por outro lado, diminuiu de 28% para 26%, somando 322 mil, estando 172 mil em firmas metal-mecânicas. O levantamento, feito a partir de pesquisa domiciliar, engloba também trabalhadores informais.

Também saído do ramo industrial, Cícero José da Silva, 39 anos, não tem tido motivos para se queixar. Despedido de uma grande indústria de fundição de Mauá, que fez demissão em massa no ano passado, ele reuniu os recursos obtidos com a rescisão e abriu um pequeno restaurante no bairro Vila Luzita, em Santo André, onde oferece self service e vende marmitex. “Estamos progredindo, minha esposa era cozinheira, já tinha trabalhado nessa área e montei o comércio”, diz Silva, orgulhoso. “Sabendo trabalhar dá para tirar o que eu ganhava antes. Faço de R$ 500 a R$ 600 em refeições por dia”, afirma.

Perda de postos de trabalho já foi maior, aponta sindicato

A situação do emprego na indústria já foi pior, especialmente no fim dos anos 1990, avalia o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Rafael Marques. “Não estamos passando por desindustrialização aguda no ABC. Nossa base (São Bernardo, Diadema, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra), que em 2002 chegou a 77 mil trabalhadores, hoje é de 103 mil”, afirmou. Mas em 2008, porém, antes da crise, eram 109 mil.

O fato é que o perfil da economia do Grande ABC, assim como o dos empregos que as companhias instaladas geram aqui, vêm mudando significativamente desde aquela década, quando houve a abertura de mercado e teve início o processo de terceirização das atividades de serviços, antes integrantes da indústria.

Nos últimos anos, o boom imobiliário e a falta de grandes espaços disponíveis na região também contribuíram para levar investimentos para outras regiões. Isso porque ficou mais caro manter indústrias por aqui, especialmente se a intenção era ampliar a fábrica. Com a saída ou o fechamento de fabricantes vieram prestadoras de serviço interessadas em aproveitar o potencial de consumo da região. São exemplos as duas unidades da Atento (em São Bernardo, onde antes era a fabricante de motores Massey Fergusson e em Santo André, onde era a De Nadai) e a operadora logística Veloce em área onde funcionava a indústria Papaiz, em Diadema.

Somado a essas questões, desde a crise internacional, o dólar ficou muito baixo, chegando a R$ 1,30 – hoje está em R$ 1,96 -, o que favoreceu a enxurrada de importados. Esses produtos do Exterior também roubam mercado, já que entram no País com preços menores por conta da mão de obra mais barata (sobretudo nos países asiáticos) e sem os encargos existentes no Brasil.

Fabricantes perdem força na economia da região desde 2008

Levantamentos recentes mostram que a indústria está perdendo a força na economia do Grande ABC. É o que aponta pesquisa do Departamento de Indicadores Socioeconômicos da Prefeitura de Santo André: a indústria representava 53% do PIB (Produto Interno Bruto) regional em 2008 e, agora, esse percentual caiu para 49% – os outros 51% são divididos entre comércio e serviços, sobretudo essa última área (com 38%).

Representantes de empresas avaliam que o momento atual é preocupante, por causa da falta de competitividade, gerada por custos trabalhistas e tributários elevados e pelo câmbio desvantajoso, por exemplo. O diretor da regional do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo) de Santo André, Emanuel Teixeira, assinala que, nesse ambiente interno desfavorável, as montadoras têm, cada vez mais, ampliado as compras de peças do Exterior.

Com isso, a indústria exporta empregos, ou seja, gera vagas em fábricas de fora. A opção para os trabalhadores brasileiros é buscar outras áreas. “Infelizmente as opções em serviços, geralmente, pagam salários menores”, pondera o diretor regional do Sintetel-SP (Sindicato dos Trabalhadores de Telecomunicações) Mauro Cava de Britto. “Acho que, se houvesse mais oportunidades na área industrial, as pessoas optariam, já que se paga mais.”