Veloce.Net
Português
English
Español
Press releases

Gastos e Custos Logísticos: É preciso diferenciá-los para melhor compreende-los

Mundo Logística

Em artigo publicado na Mundo Logística nº 29 (Julho & Agosto de 2012), abordamos o crescimento dos gastos logísticos no Brasil e no Mundo. Com base em um conjunto de estatísticas confiáveis, mostramos que os gastos com logística estavam crescendo, não só nominalmente, mas também como percentuais dos PIBs de diversos países (análises macroeconômicas) e como percentuais das Receitas Líquidas das empresas (análises microeconômicas).

Naquela oportunidade, ressaltamos as palavras gastos e custos: “a premissa, aqui, é apenas para indicar que apesar de todos os esforços das áreas de logística, na busca da diminuição dos custos logísticos, sempre possível e desejável, os gastos logísticos poderão estar aumentando em face de outros motivos, como, por exemplo, a decisão de se buscar insumos com preços mais em conta, só que, agora, em mercados mais distantes e/ou complexos. Ou porque, como estratégia, se quer alcançar novos mercados consumidores mais distantes. Consequentemente, torna-se imprescindível que se tenha em consideração, sempre, os chamados “custos totais”. É a única forma para se saber, corretamente, se alterações operacionais ou logísticas estão, de fato, sendo compensadas pelos impactos em seus custos ou se estão justificadas por decisões estratégicas. Além do que, considerando que ainda se discutem quais são os serviços que fazem parte da logística, as contabilidades das empresas podem estar incluindo, atualmente, como gastos logísticos, gastos que anteriormente eram contabilizados em outras rubricas”.

Não cabe, agora, discutir a qualidade das estatísticas apresentadas naquele artigo, pois sem dúvida os “números” são confiáveis e calculados por instituições sérias e que realizam um trabalho de levantamento de informações extremamente importante, sempre por um corpo de profissionais competentes e de altíssima reputação.

O que nos leva a escrever este novo artigo, abordando o tema é o fato de que, no dia-a-dia, é comum se encontrar empresários, executivos ou profissionais do setor, fazendo análises incorretas a partir de informações e dados corretos. Não conseguem, inclusive, entender que mesmo sem qualquer alteração no valor nominal de uma rubrica qualquer, sua participação percentual poderá ser alterada ao longo do tempo, simplesmente em face das alterações nominais das demais rubricas.

Imaginemos a Empresa X, com uma estrutura contábil semelhante à que está descrita no Quadro 1.

Hipoteticamente, para produzir seus produtos e vendê-los, a Empresa X tem gastos logísticos equivalentes a 6% da Receita Líquida (R$ 6.000,00 com relação a R$ 100.000,00). Para isso, utiliza-se dos serviços de um Operador Logístico Y, que é responsável pelo Frete e pela Armazenagem de seus produtos.

Porém, os gastos para elaboração das embalagens (mão-de-obra e outros insumos necessários para venda de seus produtos) e despachos aduaneiros (mão-de-obra e outros insumos exigidos para a realização da nacionalização dos produtos importados a serem vendidos) são realizados diretamente pela Empresa X. Esses gastos, no total de R$ 1.500,00 (R$ 400,00 + R$ 500,00 + R$ 100,00 + R$ 500,00), estão explicitados como gastos com Pessoal e Outros Insumos, e não como gastos logísticos.

 

QUADRO 1

1

Imaginemos agora que essa a Empresa X contrate, de seu Operador Logístico, além dos serviços de Frete e Armazenagem, também os serviços de Embalagem e Despachos. Atividades que muitos operadores logísticos desenvolvem e cobram juntamente com os serviços de transporte. Esta nova situação está refletida no Quadro 2.

 

QUADRO 2

2

¹ Os serviços de Embalagem e Despachos são prestados pelo Operador Logístico e estão incorporados no valor do Frete, que passou de R$ 4.500,00 para R$ 6.000,00.

Como pode ser visto no Quadro 2, ao terceirizar as atividades de Embalagem e de Despachos, não houve qualquer alteração nos resultados da Empresa X, posto que o OL consegue realizar esses serviços com os mesmos custos. Entretanto, analisando-se o novo L&P, os Gastos com Logística aumentaram para R$ 7.500,00 e passaram para 7,5% da Receita Líquida.

Portanto, a Empresa X, na Situação Inicial, computava como Gastos Logísticos apenas o equivalente a 6% de sua Receita Líquida, uma vez que diversos outros serviços, no nosso exemplo Embalagem e Despachos, estavam diluídos na estrutura da empresa e não eram contabilizados na rubrica Logística. Pode parecer que não, mas isso é muito comum, principalmente quando falamos de outras despesas que, ao serem realizadas, não parecem ser relativas à Logística.

Nestes casos, é imprescindível que a empresa, ao comparar esse percentual em períodos distintos, equalize corretamente as comparações para se saber se, na situação inicial não haviam outros gastos logísticos diluídos em outras rubricas.

Imaginemos outra hipótese: a Empresa X, buscando economizar no Custo das Mercadorias Vendidas, desenvolve novos fornecedores que conseguem produzir mercadorias com preços 10% menores do que os fornecedores anteriores.  O novo CMV passará de R$ 60.000,00 para R$ 54.000,00. Porém, esses novos fornecedores têm suas fábricas em locais mais distantes e que, consequentemente, exigirão mais gastos com frete.

QUADRO 3

3

² CMV com preços 10% menores, mas com fornecedores localizados a distâncias maiores que exigem 10% a mais de gastos logísticos.

Comparando-se o Quadro 3 com o Quadro 1 (Situação Inicial), a Empresa X conseguiu melhorar o Lucro Bruto (de R$ 17.500,00 para R$ 22.900,00), elevando o percentual para 22,9% da Receita Líquida. Isto se deu graças à diminuição do custo das mercadorias vendidas (CMV), proveniente de desenvolvimento de novos fornecedores. Esses novos fornecedores, mesmo elevando os gastos com logística (de R$ 6.000,00 para R% 6.600,00), proporcionaram à Empresa X um incremento no Lucro Bruto de R$ 5.400,00. Isto significa dizer que os Gastos com Logística – que agora representam 6,6% da Receita Líquida, e, portanto, 0,6% maior do que na situação inicial – foram aumentados não por ineficiência ou queda de produtividade da logística, mas, sim, por uma decisão estratégica (desenvolvimento de novo fornecedor) que gerou, ao final das contas, aumento do Lucro Bruto para a empresa.

Uma análise simplista, sem considerar esses aspectos, poderia nos levar a “criticar” o departamento de logística da Empresa X, por um entendimento incorreto sobre elevação dos custos logísticos quando, na verdade, houve aumento de gastos. Neste tipo de caso, é preciso analisar o “custo total”. Em nosso exemplo, o Custo Operacional Total do Quadro 3 é menor (de R$ 76.500,00 para R$ 71.100,00) do que o Custo Operacional Total do Quadro 1, apesar do aumento do Gasto Logístico (de R$ 6.000,00 para R$ 6.600,00). Aliás, foi o aumento do Gasto Logístico que propiciou a diminuição do Gasto Operacional Total.

Vejamos o que acontece quando os dois eventos ocorrem ao mesmo tempo: o operador logístico terceiriza atividades que eram realizadas internamente pela Empresa X e esta, também, utiliza-se de novos fornecedores para diminuir seu CMV. O quadro 4, a seguir, ilustra essa nova situação.

QUADRO 4

4

Os Gastos com Logística representam, agora, 8,3% da Receita Líquida da Empresa X. Comparando-se com a Situação Inicial (Quadro 1), o aumento foi de 37,5%, elevando sua participação de 6% para 8,3% da Receita Líquida.

A simples leitura desses dois percentuais, sem uma análise correta, poderá nos levar a conclusões também incorretas. Todos nós sabemos que as variações de produtividade têm comportamento inversamente proporcional às variações de custos, ou seja, quando há aumento de produtividade, necessariamente haverá diminuição de custos. E vice-versa. Entender, como se vê muito comumente, que o aumento do percentual dos gastos logísticos com relação à receita líquida das empresas é sinal de queda de produtividade ou ineficiência na execução das operações logísticas pode ser um grave erro. Nas simulações aqui apresentadas, esse percentual somente aumentou por dois motivos distintos: terceirização de serviços que antes eram realizados internamente na empresa (Quadro 2) e diminuição do custo das mercadorias vendidas (Quadro 3). Portanto, foram benéficos para empresa, e não o contrário.

É significativo, portanto, que haja aumento substancial nos gastos com a logística, mas é importante analisar a origem desses aumentos, considerando a diferença entre gastos e custos logísticos. Os primeiros, como citado no artigo mencionado, “poderão aumentar independentemente de possíveis melhorias de produtividade das operações logísticas (quando sempre se espera diminuição dos custos logísticos), posto que as mercadorias poderão, por motivos estratégicos ou para compra de insumos mais baratos, percorrer distâncias cada vez maiores e por ambientes mais complexos, principalmente com a inclusão de novos mercados no comércio internacional”

Há empresas, inclusive, que acreditam estar aumentando seus custos logísticos por conta de “ineficiência” da logística, quando, na verdade, estão aumentando seus gastos por vender ou comprar de localidades mais distantes. Utilizam-se, para comprovar “incorretamente” no que acreditam, a equação R$ por km, como se outras variáveis, tais como tempo, complexidade e estratégia de compra ou distribuição (alcançar mercados distantes), não tivessem qualquer importância na composição dos custos operacionais ou, no mínimo, não fizessem parte das decisões empresariais maiores. Com relação a este assunto (R$/km), valerá à pena, no futuro, comentários complementares.

As ponderações aqui feitas valem também para países, pois é óbvio que países como o Brasil, com dimensões continentais, deverão gastar mais com a logística de abastecimento e distribuição de produtos a seus habitantes do que países como o Japão. Mas, infelizmente, essas observações nem sempre são considerados pelos analistas e profissionais do setor.

Portanto, afirmações de que os custos logísticos estão sempre aumentando (seja em relação à receita total das empresas ou dos PIBs nacionais), precisam ser avaliadas com cuidado e de forma ponderada, pois a simples comparação de gastos logísticos entre um período e outro pode não significar aumento dos custos logísticos, mas, sim, do aumento com gastos logísticos, oriundo da introdução de novas, mais complexas e mais abrangentes operações.