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A Logística e a Inovação

Mundo Logística

O exemplo do setor automotivo

O setor automotivo sempre foi considerado uma das “vanguardas” no desenvolvimento de novas tecnologias, processos e produção. A própria evolução do processo produtivo na indústria automotiva, segundo o professor Cesar Lavalle, do Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS)(1), das montadoras de automóveis têm culminado com produções cada vez mais complexas.

 

De acordo com o professor Lavalle, essa evolução exigiu, entre outras providências:

a)      Maior visibilidade de todo o processo produtivo;

b)      Maior capacidade para encontrar soluções rápidas e efetivas às exigências e ao atendimento dos clientes;

c)       Programa para prevenção contra consequências oriundas da volatilidade e ruptura de suprimentos (seja por razões naturais, geopolíticas ou de processos de incerteza);

d)      Otimização da Cadeia de Suprimentos;

e)      Maior importância aos custos logísticos em toda a cadeia produtiva;

f)       Desenvolvimento e implantação de logísticas integradas, inclusive entre montadoras, como forma de ganhar escala e reduzir custos.

g)      Desenvolvimento e implantação de uma logística reversa para veículos, peças e componentes.

h)      Tecnologias para:

1)      Imediata identificação e rastreamento de eventos;

2)      Monitoramento de indicadores de desempenho em tempo real.

Como se depreende da lista anterior, capacitação e logística são itens fundamentais para a realização dessas providências.

No Brasil, recentemente, o governo lançou o programa INOVAR AUTO, cujos objetivos são: (i) incentivar as empresas a fabricar carros mais econômicos e mais seguros, (ii) aumentar a competitividade do setor, e (iii) investir na cadeia de fornecedores e em pesquisa e desenvolvimento. O programa busca, simultaneamente, o Desenvolvimento Tecnológico e o Adensamento da Cadeia Produtiva. Entre outros, destacam-se investimentos de aproximadamente R$ 67 bilhões em engenharia e produção até 2017, dos quais R$ 14 bilhões em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D).  Do volume total, R$ 49,5 bilhões serão investidos pelas montadoras e R$ 18 bilhões pelas empresas de autopeças (Sindipeças: R$ 3,6 bilhões por ano de 2013 a 2017).

Considerando que as montadoras de automóveis, em todo o mundo e notadamente as brasileiras, precisam acelerar o processo do avanço tecnológico combinado com viabilidade econômica, os investimentos deverão ser orientados para:

(i)                  Estímulo às pesquisas;

(ii)                Aumento do padrão tecnológico;

(iii)               Domínio das atividades fabris.

Por outro lado, como é característica do setor, a necessidade de melhorias da competitividade obrigou as principais montadoras a adotarem duas medidas básicas: ampliação das fábricas e modernização e diversificação do portfólio. Segundo dados da Greenfield(2) , R$ 15 bilhões estão sendo investidos entre 2012 e 2015: R$ 12 bilhões em novas fábricas de automóveis e comerciais leves (9 projetos para mais 1 milhão de automóveis por ano) e R$ 3 bilhões em novas fábricas para caminhões e ônibus (8 projetos para mais 80 mil veículos por ano).

Esses investimentos farão com que o Brasil tenha, num curto espaço de tempo, 25 fábricas de automóveis e comerciais leves e 15 fábricas de caminhões e ônibus, em vez de 18 e 8, como tem hoje, respectivamente. Nesses projetos estão inclusos, também, investimentos em 18 novas fábricas de motores. A capacidade instalada, já em 2017, deverá propiciar a produção de 6 milhões de automóveis. Caso isto ocorra, com os dados atuais teremos, naquele ano, uma frota de cerca de 55 milhões de unidades (atualmente está estimada em 39 milhões de unidades).

No mês de maio, na posse da diretoria da Anfavea,   seu novo presidente, Luis Moan, comentando os principais objetivos da entidade para os próximos anos, colocou como uma das metas do setor, a exportação de 900 mil automóveis por ano, contra os 450 mil atuais.

É óbvio que o setor de autopeças também deverá fazer seus investimentos considerando essas metas, pois terá dois grandes compromissos a cumprir: alimentar as fábricas para a produção dos automóveis e abastecer o mercado de peças para reposição.

Entretanto, para nossa surpresa, muito pouco se falou sobre providências a respeito da logística necessária para realizar toda essa produção e entregá-la aos consumidores finais, com eficiência e eficácia.

 

A Logística para o Setor e os Desafios Correspondentes

Infelizmente, a indústria automobilística brasileira – como todos os demais setores produtivos brasileiros – continuará enfrentando problemas logísticos em toda a extensão da cadeia produtiva.

 

Tenho comentado que três forças, simultaneamente, têm impulsionado a logística no Brasil e no Mundo(3). São elas: 1ª) quantidades crescentes de mercadorias a serem movimentadas; 2ª) aumento da infraestrutura logística mundial; 3ª) convicção de que a logística é estratégica para o crescimento e desenvolvimento de empresas e países.

 

Porém, apesar do crescimento e do reconhecimento da logística como fator chave de sucesso para empresas e países, aqui no Brasil, mais especificamente, há pelo menos três grandes problemas a ser resolvidos de uma forma definitiva e profissional, no lugar das soluções provisórias e amadoras: a) Infraestrutura; b) Capacitação; c) Cultura Logística.

 

Ainda agora, o IMD (International Institute for Management Development), famosa escola de negócios na Suíça, divulgou o “Índice Mundial de Competitividade de 2013”. Como pode ser visto na figura 1, o Brasil, que em 2012 ocupava a 48ª posição, em 2013 foi para o 51° lugar. Mesmo na América Latina, o Brasil ficou atrás de Chile, México, Peru e Colômbia.

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Figura 1 – Índice Mundial de Competitividade de 2013 – Fonte: IMD

 

A pesquisa, realizada com base nos dados estatísticos existentes e na opinião de executivos importantes em todo o mundo, avaliou as condições de competitividade de 60 países. Problemas com educação e infraestrutura e a necessidade de reformas (tributária, por exemplo) contribuíram muito para a nota final dada para o Brasil.

Nessa pesquisa, um tema específico também é abordado: eficiência governamental. Aqui, infelizmente, o Brasil está entre os três piores países nos 60 analisados. Stephane Garelli, diretor do Centro de Competitividade Mundial do IMD explica: “a competência dos governos não está ao nível da complexidade dos problemas da economia atualmente”. E isto vale para todo o mundo.

Não devemos esquecer que, assim como a Infraestrutura, capacitar pessoas tem sua solução a partir de muito investimento e com resultados alcançados somente a partir do médio prazo. Quando falamos de capacitação estamos nos referindo ao seu significado mais abrangente, que é a própria Educação.

 

Encontrar pessoas capacitadas e em condições técnicas para suprir as necessidades de aumento de produção, melhoria do processo produtivo e desenvolvimento tecnológico (Inovação) não tem sido, ultimamente no Brasil, uma tarefa muito fácil.

 

O Índice de Performance Logístico (LPI), anualmente publicado pela Turku School of Economics da Finlândia, mostra que o Brasil está muito aquém das reais necessidades logísticas, se comparado com os demais países do mundo. Analisando-se a figura 2, relativo ao ano de 2012, mais uma vez nota-se que os principais problemas brasileiros são, entre outros: competência logística e infraestrutura.

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Figura 2 – Índice de Performance Logístico (LPI) – Fonte: Turku School of Economics – Finlândia

 

Infelizmente, os resultados de 2012 foram piores que os de 2010, indicando que o Brasil, em comparação com os outros 155 países analisados, perdeu competitividade.

Espera-se, portanto, que usuários e prestadores de serviços logísticos, juntos, trabalhem fortemente para vencer esses três grandes desafios.

 

Vamos, a seguir, explorar um pouco mais cada um dos três pontos citados.

 

Infraestrutura Logística

 

Desnecessário repetir os problemas que a falta de uma infraestrutura logística adequada tem causado para a economia brasileira e, mais especificamente, ao desenvolvimento. Além do que, os altos custos, provenientes dessa situação precária, são sentidos por todos. O exemplo dado pelas exportações brasileiras de soja, com filas intermináveis de caminhões, aguardando o momento de descarregar nos portos, apenas ilustra o que acontece no Brasil há muitos anos.

A própria FIESP, em seminário específico, realizado no último mês de maio, mostrou que o desempenho da infraestrutura brasileira de transporte, comparado com outros competidores mundiais, tem ficado muito aquém do necessário. Com ‘benchmark internacional’ igual a 100, nosso índice vem caindo significativamente ano a ano. Em 2010 chegou a 33, quando já esteve, 10 anos atrás, com índice igual a 40 (veja figura 3).

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Figura 3 – Desempenho da Infraestrutura do Transporte Brasileiro. Fonte:  FIESP/Maio 2013

 

Também é sabido, como demostram as estatísticas pertinentes, que taxas de crescimento de um país estão diretamente ligadas às suas taxas de investimento em infraestrutura. É impossível imaginar que um país possa crescer, incorporar novos mercados (produtores ou consumidores), abastecer eficientemente e a baixos custos seu mercado interno e atender seu mercado externo com ‘baixo’ investimento em infraestrutura.

A figura 4, elaborada a partir de informações do FMI, BCB e IBGE, ilustra a afirmação e indica que os investimentos brasileiros, para esse fim, estão muito aquém das nossas reais necessidades. Se compararmos com países mais desenvolvidos, que já possuem uma infraestrutura “pronta”, muito mais eficiente e abrangente, notaremos que os valores investidos no Brasil – com relação ao PIB – são bastante pequenos.

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Figura 4 – PIB X Infraestrutura – Fontes: FMI, BCB, IBGE

Ainda, com base em dados oficiais, fica patente que os países mais ricos (maiores PIB’s do mundo), contam com investimentos substanciais e significativos em Infraestrutura.

Como se nota na figura 5, os países mais ricos são aqueles que mais investem em infraestrutura, destinando parte substancial do PIB para esse fim. Há que se lembrar que estamos falando de PIB’s maiores se comparados com o nosso. Enquanto países como a China, Japão, Alemanha, França e Estados Unidos, investem em infraestrutura, respectivamente, 9%, 6%, 5%, 2,8% e 2,3% do PIB, o Brasil investe 1,8%.

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Figura 5 – PIB 2012 e investimento em infraestrutura – Fontes: FMI, BCB, IBGE

Pior do que isso (para a infraestrutura logística, explique-se) só o fato de que muitos desses recursos, contabilizados no Brasil como infraestrutura foram, na verdade, financiamentos habitacionais para pessoas físicas. Como já apontamos em artigo anterior nesta MundoLogística(4), 49% dos gastos realizados pelo PAC 1 foram financiamentos habitacionais e no PAC 2,  67% (até maio de 2012).

É fundamental, portanto, que usuários e operadores dos serviços logísticos, diretamente ou através de suas associações, e de forma conjunta, “pressionem” o governo para aumentar os recursos e realizar, de fato, os investimentos necessários para melhoria da infraestrutura logística brasileira.

No próximo artigo, comentarei sobre os dois outros desafios: Capacitação Profissional (Educação) e Cultura Logística.

 

Referências

(1)     Artigo “Impactos de Tecnologias Emergentes nas Empresas e no Desenvolvimento Econômico” (Revista Tecnologística, mar/13)

(2)    Automotive Business, 01/04/13

(3)    Mundo Logística nº 30 – Set/Out de 2012

(4)    Mundo Logística nº 30 – Set/Out de 2012 e Valor Econômico (Edição Setorial, maio/2012)