Veloce.Net
Português
English
Español
Press releases

O valor da capacitação profissional para o desempenho logístico

Revista Mundo Logística

Como comentado no último artigo, há pelo menos três grandes problemas a serem resolvidos no Brasil, para que a logística tenha, de fato, um desempenho satisfatório. E, volto a insistir, precisam ser resolvidos de forma definitiva e profissional, não com propostas provisórias e amadoras. Os principais desafios em nossa avaliação são:

a) Infraestrutura; b) Capacitação; c) Cultura Logística.

 

Ainda, naquele artigo, explorei um pouco mais o tema da Infraestrutura. Vamos, agora, discutir Capacitação, deixando o tema Cultura Logística para outro momento.

É entendimento comum aceitar que a melhoria da qualidade da produção (processo e produto) e o aumento do nível de competitividade empresarial ou nacional somente poderão ser obtidos através do domínio de novas tecnologias, da inovação e do aumento da produtividade.

Mas é sabido também que essas características, fundamentais para o desenvolvimento econômico-social, somente serão obtidas a partir da capacitação das pessoas. Impossível, para um país ou uma empresa melhorar seu desempenho nesses pontos com equipes mal preparadas ou sem condições de gerar novos conhecimentos ou absorver aqueles que se colocam à disposição de todos, frutos da evolução da humanidade.

E, imprescindível reconhecer que pessoas capacitadas somente existirão na medida em que investimentos em educação e pesquisa e desenvolvimento (P&D) forem feitos de forma compatível.

Portanto, investir em P&D e na melhoria da qualidade do ensino em todos os níveis, passa a ser prioridade de um país ou de uma empresa, pois a baixa qualidade do ensino é diretamente proporcional às baixas qualificação e capacitação do trabalhador.

São fartos os estudos que indicam que melhorias na educação têm impactos diretos na produtividade e no crescimento dos países. E que investir em P&D, além de necessário ao desenvolvimento, também é importante para a soberania de países ou empresas.

Entretanto, são fartos, também e infelizmente, os estudos e estatísticas que demonstram a baixa qualidade de nossos adolescentes, estudantes e profissionais, inclusive quando avaliados por testes internacionais. Fiquemos apenas com os exemplos mais conhecidos:

a)     A taxa de alfabetização (adultos acima dos 15 anos) alcançada pelo Brasil, em 2011 foi de 90,0%, alcançando a 84ª posição dentre os 187 países listados. Em 2007, com taxa de 90,3%, o Brasil ocupava a 95ª posição em 177 países pesquisados;

b)    Dos 55 países do ranking do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA de 2012), realizado pela OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), o Brasil ficou no lugar de número 52! Em 2009 a posição era a 53ª.

c)     A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) que avalia seus “recém-saídos” das faculdades, tem índice de reprovação de 80% se analisamos a média dos últimos seis exames. O quadro 1 detalha essas informações;

d)    O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP), em  exames de avaliação, reprova cerca de 50% de seus profissionais (quadro 2) e com duas informações preocupantes: (i) “Nos últimos cinco anos a proporção de aprovação foi sempre menor que 60%, resultado que mantém uma tendência consistente e é considerado insatisfatório e preocupante pelo Cremesp”; (ii) “O Exame do Cremesp de 2012 demonstra que há deficiências na formação dos estudantes em campos essenciais do conhecimento médico”.

Quadro 1

1

Quadro 2

2

Quando comparamos os índices brasileiros de investimento em P&D com os de outros países do mundo (quadro 3), também não temos informações muito positivas e demonstramos que ainda temos muito a fazer.

Quadro 3

3

Aliado à atual carência de mão-de-obra (desemprego na casa dos 5% é significativamente baixa), a baixa qualidade de ensino e os baixos investimentos em P&D, juntos, têm propiciado uma capacitação (qualificação) extremamente baixa de nossos profissionais, tornando cada vez mais difícil se obter benefícios oriundos da “inovação” e do desenvolvimento tecnológico a não ser pela via da importação. É o que indica o quadro 4, quando demonstra que cada vez mais o Brasil depende das importações para obter produtos com maior intensidade tecnológica. Reportagem de Rodrigo Pedroso (Valor de 16.07.2013), com base em dados do Ministério da Indústria e Comércio (MDIC) e do IEDI, confirma essa tendência no primeiro semestre deste ano: “o aumento da importação da indústria de transformação neste ano está concentrado em setores de média-alta e alta tecnologia”. Isso “provocou expansão de 13% no déficit no conjunto de produtos de maior valor agregado que alcançou US$ 46 bilhões no acumulado de janeiro a junho”. “Sempre tivemos a tendência no país, de importação de produtos de alta e média-alta tecnologia”, diz a economista Lia Valls da Fundação Getúlio Vargas. O quadro 5 sintetiza essa conclusão.

Quadro 4

4

Quadro 5

5

E as expectativas para o futuro não são melhores, pois a “geração nem nem” (nem estudam e nem trabalham), a continuar ‘progredindo’, não deverá facilitar o desenvolvimento econômico que se necessita ou se deseja. Reconheça-se, inclusive, que investir em P&D, sem a contra partida do aumento da competência das pessoas, não produz os frutos que se imagina.

 

Produzir mais e com mais qualidade, como formas de se aumentar nossa competitividade, tanto nos produtos de exportação (o Brasil tem perdido muito com a baixa competitividade na produção e na exportação de produtos manufaturados nos últimos anos) como aqueles voltados ao mercado interno, dependem, óbvia e claramente, de tecnologias modernas e muita inovação. Tanto nos processos produtivos como na obtenção do produto final ou serviço. Isso só se consegue com mão de obra capaz.

 

Cledorvino Belini, presidente da Fiat do Brasil e ex-presidente da Anfavea: “Os países mais preparados no setor educacional são também aqueles que mais rapidamente conseguem ter domínio sobre as novas tecnologias e imprimir inovação e ganho de produtividade em um curto espaço de tempo. Além do que, países que formam cidadãos com forte capacidade de raciocínio e síntese estão mais preparados para competir no mercado mundial”.

 

Ou como diz o professor José Carlos Teixeira Moreira, da EAESP/FGV e do Instituto de Marketing Industrial: “fazer bem o que precisa ser feito é uma competência essencial nos dias de hoje e ganha dimensão estratégica”.

 

Portanto, propostas do setor privado ou do governo (como o Inovar Auto, comentado no artigo anterior ou Inova Aerodefesa, com recursos do FINEP), são sempre bem-vindas, desde que realizadas com eficácia. Escolas ou faculdades especializadas em logística, investimentos maciços em treinamento, programas com estagiários e jovens aprendizes, estímulos e benefícios ligados diretamente ao desenvolvimento profissional e outros, são iniciativas que poderão, no médio prazo, amenizar os impactos negativos gerados pela má formação de nossos estudantes e aumentar a capacitação de nossos profissionais no campo logístico e, de resto, em todos os demais segmentos da economia. Aliás, não é à toa que, segundo alguns indicadores, os novos investimentos privados estão sendo focados, principalmente, nos processos de seleção, recrutamento e retenção de talentos – notadamente naqueles com mentalidade empreendedora -  e no aumento de produtividade de suas empresas.

 

Profissionais cidadãos, capacitados, “antenados ¹ ”, com foco em resultados e que saibam realizar ², são as principais características do profissional moderno. Talvez não seja tão moderno assim, considerando que já em 1958, em seu livro “Estratégia do Desenvolvimento Econômico”, o escritor e intelectual Albert Hirschman (relembrado em artigo de José Serra na revista Veja de 26.06.13) comentou que, para que se alcance o desenvolvimento, não basta determinação: “O desenvolvimento depende menos de encontrar combinações ótimas dos fatores de produção dados do que de arregimentar recursos e capacidades que estão ocultos, dispersos ou mal utilizados, pondo-os em ação”. Complementado por Serra: “É preciso saber o que é necessário fazer”.  Talvez aí estejam os principais objetivos de amplos programas educacionais e de treinamento. Enfatizar o desenvolvimento nas escolas básicas e na formação de professores que entendam o mundo novo, as novas tecnologias e as novas demandas dos alunos e das empresas, parece ser um caminho.

 

¹ “Que estejam atentos a tudo o que acontece ao seu redor e não somente no seu segmento econômico, pois há diversos agentes que, direta ou indiretamente, nos forçam a adotar providências para atendê-los:  sociedade, cliente, fornecedor, empregado, acionista, governo e natureza (meio-ambiente) são alguns exemplos. Qualquer um desses agentes (verdadeiros patrões) que seja contrariado, criará sérios obstáculos ao correto funcionamento da sociedade e da economia. Produzir e poluir? Nem pensar. Produzir e sonegar? Também não. Produzir e desrespeitar as leis? É claro que não.”  Vejam nosso artigo “Tendências dos Operadores Logísticos”, publicado nesta revista em Março/Abril de 2013, no qual são tratados temas ligados aos “Patrões das Empresas”.

 

Ou como diz Carlos Vitor Strougo, diretor de Relacionamento Institucional da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH): “Os gestores precisam ter alto nível intelectual, cultural e analítico – do pensamento à economia. Quem entende como o mundo funciona, consegue compreender as expectativas de inter-relacionamento”.

Profissional ‘antenado’, em seu livro “Talento – A Verdadeira Riqueza das Nações”, Alfredo Assumpção reconhece esse executivo e o trata como Agente de Mudanças. Profissional que saberá ajustar os caminhos da empresa às demandas de mercado, melhorando a produtividade e a lucratividade empresarial.

 

² “Fazer não é algo menor quando se compara com Planejar. Atualmente, os profissionais mais pretendidos são aqueles que planejam e sabem fazer. Infelizmente na cultura brasileira, fazer (por a mão na massa) não é, reconhecidamente , um grande valor” (Prof. José Carlos T. Moreira).