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Infraestrutura e Multimodalidade: exigências da moderna logística brasileira

Mundo Logística - Setembro / 2014

Para os próximos anos, os cenários econômicos para o Brasil, em sua grande maioria, foram desenhados com base em expectativas de baixo crescimento do PIB.

E embora os impactos correspondentes tenham graduações diferentes, dependendo do segmento produtivo analisado, todas as empresas terão seus “dias difíceis”. A consequência disso é a de que todas elas estão se vendo obrigadas a buscar rentabilidade e preservação de suas posições de mercado.

Aumentos de produtividade, como principal forma de diminuição de custos, redução da dependência da economia interna, limitação e seletividade para os novos investimentos e negociação forte com fornecedores têm sido o receituário da maioria.

Nessa busca (rentabilidade e manutenção de posição de mercado), as empresas precisam melhorar o atendimento a clientes, suas cadeias de suprimentos e seus processos operacionais, com esforços importantes na redução de estoques e custos.

Isto, sem dúvida, e como já vem ocorrendo há algum tempo, tem criado novos espaços para a terceirização das atividades logísticas, que, como se sabe, têm importância estratégica para todo mundo empresarial e são fundamentais para o sucesso das empresas.

No entanto, e como já comentado diversas vezes, a ainda precária infraestrutura brasileira continuará forçando para cima os custos logísticos. Com custos altos ou sem infraestrutura logística adequada, compromete-se o crescimento de qualquer economia, o que dirá das “performances” das empresas ¹.

¹ “Num prazo mais longo, o crescimento econômico somente poderá ser mantido e sustentado quando as condições econômicas e sociais estimularem investimentos significativos em todos os setores, cujas carências mais se apresentam. É preciso priorizar. E nessa priorização, sem dúvida, além de itens como educação e saúde, há que se colocar como um dos grandes objetivos a serem alcançados, os investimentos na infraestrutura logística (Revista Mundo Logística nº 39: A Política Econômica e a Infraestrutura Logística).

Os resultados desta situação – de baixo nível de investimentos em infraestrutura (vide quadro elaborado pela empresa Inter.B Consultoria e publicado na Carta de Infraestrutura de Agosto) – podem ser constatados por todos aqueles que, diariamente, necessitam desta para realizar seus negócios: dimensão irrisória, se comparada com o tamanho do país; matriz de transporte dependente demasiadamente do modal rodoviário; qualidade aquém das exigências mínimas; e altos custos.

 

          Investimentos em Infraestrutura no Brasil (2011 a 2014)²

² A projeção para 2014 foi feita pela Inter.B Consultoria que, inclusive, ressalta o fato de que o PIB, base desses cálculos, tem tido expansões menores e obrigando, por si só, os valores investidos representarem percentuais maiores.

 

De fato, como constatado no quadro a seguir, o Brasil está muito distante da realidade dos países desenvolvidos e mesmo de alguns emergentes, no que tange à sua infraestrutura de transportes.

 

Infraestrutura de Transportes (Fonte: ILOS)

 

Analisemos apenas três exemplos: (i) enquanto temos 210 mil km de rodovias pavimentadas, os Estados Unidos têm 4,2 milhões de km; (ii) enquanto os EUA têm 227 mil km de ferrovias, o Brasil tem 29 mil km; (iii) o Brasil tem apenas 19 km de dutos, enquanto os norte-americanos operam com 793 mil km.

Publicado pela Editora FGV em 2014, o livro “Gargalos e Soluções na Infraestrutura de Transportes”, organizado por Armando Castelar e Cláudio Frischtak, descreve de forma clara, detalhada e objetiva os problemas e os fatores relevantes para a modernização da infraestrutura brasileira. Como salientado na “capa”, pelo editor da revista Exame, José Roberto Caetano, “é bem provável que nunca na história brasileira o assunto infraestrutura tenha estado em tanta evidência quanto está hoje. A razão é palpável”. No prefácio, escrito pelo prof. Paulo Fleury, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e diretor do ILOS (Instituto de Logística e Supply Chain), mais uma constatação importante: o PAC (Plano de Aceleração do Crescimento), lançado pelo governo há seis anos com o objetivo de reduzir nossos déficits de infraestrutura, está, em seus grandes projetos de transporte, com atraso médio de 48 meses e aumento dos custos médios, em relação ao orçado, de aproximadamente 75%. “Praticamente, nenhum projeto de grande porte pertencente ao PAC transporte entrou em operação”.

O Dr. Clésio Andrade, presidente da CNT (Confederação Nacional do Transporte), na apresentação do “Plano CNT de Transporte e Logística 2014”, afirma que “passamos por décadas sem dispor da atenção necessária para a infraestrutura de transporte no Brasil, e a dificuldade gerencial dos governos para investir da forma que o país precisa culmina por agravar o quadro atual, que é desfavorável”. O plano apresenta 2.045 projetos para todos os modais de transporte, de forma integrada e sistêmica, e estima investimentos na casa de R$ 1 trilhão!

Outro estudo, elaborado por técnicos da Universidade de São Paulo (USP)³ e que foi comentado por Valor Econômico em setembro último, também indica a necessidade de se investir R$ 1,1 trilhão em infraestrutura de transportes, até o ano 2030, como única forma de o Brasil melhorar sua competitividade. Ainda, conforme o estudo, “para ser factível”, o Brasil precisaria investir R$ 600 bilhões em rodovias, R$ 360 bilhões em ferrovias, R$ 85 bilhões em portos e R$ 33 bilhões nos aeroportos.

³ “Infraestrutura de transportes no Brasil: aspectos que sugerem a necessidade de investimento privado no país”. Estudo coordenado pelo professor Claudio Tavares de Alencar, do núcleo de Real Estate da Escola Politécnica da USP.

 

O IMD (Índice de Competitividade Mundial) de 2013, coloca o Brasil na 51ª posição, sendo que em 2012 ocupava a 48ª. Estudos e pesquisas do Fórum Econômico Mundial, também recentemente publicados, ilustram de forma científica essa situação, pois dão conta de que o Brasil, dentre os 148 países considerados, ocupa a 114ª posição em termos de infraestrutura. O Banco Mundial, na publicação do Índice de Desempenho Logístico (LPI) de 2014, classifica o Brasil na posição 65, dentre 160 países analisados. O pior item analisado, Serviços Aduaneiros, ficou na posição 94.

Ainda recentemente participamos, em Brasília, do Painel 2014 (“Pacto pela Infraestrutura Nacional e Eficiência Logística”), realizado pelo Instituto Besc – Humanidades e Economia, cujo principal objetivo foi discutir como o Brasil poderá realizar um esforço conjunto no sentido de colocar, em prática, por qualquer governo de plantão e sob quaisquer circunstâncias, os diversos planos e projetos existentes para desenvolvimento da infraestrutura logística brasileira.

Naquela oportunidade, como coordenador de um dos painéis de discussão e considerando que a Governança Pública é, cada vez mais, uma necessidade imperiosa para se alcançar a melhoria da gestão e do correto direcionamento dos esforços e dos recursos públicos, fiz os seguintes questionamentos:

1º) Como traçar políticas para a logística brasileira e restabelecer a capacidade de planejamento integrado, a multimodalidade e a articulação das diversas cadeias produtivas que constituem o processo de produção brasileiro?

2º) Como evitar a sobreposição de funções institucionais, os conflitos de gestão e definir de forma racionalizada o papel de cada um?

3º) O governo tem capacidade para realizar sua parte, seja nos investimentos ou no processo de planejamento necessários para a concretização dessas políticas?

4º) O PNLT (Plano Nacional de Logística e Transporte) consegue institucionalizar um processo contínuo de planejamento que mantenha essas políticas integradas?

5º) É a EPL (Empresa de Planejamento e Logística) a empresa com condições de organizar, estruturar e qualificar  o planejamento integrado da infraestrutura e da logística no Brasil?

6º) Como integrar os modais de transporte e as cadeias produtivas, respeitando as vocações regionais e o meio ambiente?

7º) Os gargalos nos acessos portuários, a má gestão de algumas das autoridades portuárias e o excesso de burocracia aduaneira, por exemplo, podem ser resolvidos quando se dá prioridade somente à infraestrutura portuária?

8º) Dadas as circunstâncias políticas e econômicas de cada momento, que limitam, ou pelo menos contingenciam os recursos públicos, como atrair a iniciativa privada para projetos de infraestrutura logística, posto que este setor não só espera retornos sobre seus investimentos, como exige, também, regras e normas claras?

9º) Considerando que os investimentos médios em infraestrutura de transporte ficam próximos do 1% do PIB brasileiro e que, como indicam diversos estudos, para diminuir a distância que temos com os países mais desenvolvidos, precisaríamos investir cerca de R$ 1 trilhão (cerca de US$ 420 bilhões e que representam aproximadamente 17% do PIB), quanto tempo ainda teremos para conviver com uma infraestrutura deficiente e a que custos?

Portanto, é imprescindível definir os papéis institucionais dos diversos órgãos que discutem e “planejam” a infraestrutura logística e o transporte no país, como única forma de cortar o mal pela raiz, ou seja, de combater os entraves à modernidade e à efetiva implantação da multimodalidade. Entraves como a fragmentação dos núcleos de gerenciamento e decisão; a desconexão das políticas públicas em suas diversas esferas e destas com as demais áreas envolvidas; a politização dos cargos nas agências, ministérios e departamentos técnicos; as indefinições com respeito aos marcos legais e regulatórios; e a falta de políticas claras de investimentos e garantias, entre outros, precisam ser “tirados” da frente.

Em artigo publicado na Revista Tecnologística nº 221 (Pacto Nacional pela Multimodalidade), escrito juntamente com o Diretor Executivo da ABOL (Associação Brasileira de Operadores Logísticos), Dr. César Meirelles, apontamos claramente que é chegado o momento para que o Brasil transforme os diversos diagnósticos, estudos e planos sobre infraestrutura logística, realizados ao longo dos últimos anos, em concretas e efetivas realizações. Em especial, aqueles voltados ao desenvolvimento da multimodalidade, o caminho mais inteligente para aproveitar todas as vantagens de cada meio de transporte. Consequentemente, chegamos ao momento de considerar os diversos modais de transporte como complementares e não como concorrentes. Momento de realizar planejamento de Estado e não só planos de governo. E momento de se buscar a integração entre os diversos atores da cadeia produtiva, como única forma para crescimento e desenvolvimento de todos, e não só daquele com maior poder de pressão.

Depois de décadas de inação, já passamos pela fase das discussões do problema e temos hoje um diagnóstico profundo das causas do chamado “Custo Brasil”.  Sabemos que a infraestrutura deve ser tratada como prioridade de qualquer governo e que a multimodalidade é um dos caminhos para a competitividade e a verdadeira aceleração do crescimento. O que precisamos agora é agir, transformando planos e projetos em realidade. Aliás, como já defendido há tempos por todos nós que lidamos diariamente com a logística.