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Exigências para uma moderna logística brasileira

Revista Painel 2015

Instituto BESC

 

Exigências para uma moderna logística brasileira

Paulo Roberto Guedes – Maio de 2015

 

Os cenários econômicos para os próximos anos no Brasil, em sua grande maioria, foram desenhados com base em expectativas de baixo crescimento do PIB, e embora os impactos correspondentes tenham graduações diferentes, dependendo do segmento econômico analisado, todas as empresas terão seus “dias difíceis”. Consequências: tornou imprescindível adaptar-se aos novos cenários, manter a rentabilidade e perseverar na qualidade e na excelência operacional, como forma de satisfazer clientes e preservar posições de mercado.

A receita, com as adaptações de praxe, é conhecida: (i) aumento de produtividade (principal forma de diminuição de custos), (ii) redução da dependência da economia interna, (iii) limitação e seletividade para os novos investimentos e (iv) negociação forte com fornecedores.

Isto, sem dúvida, e como já vem ocorrendo há algum tempo, tem criado novos espaços para se terceirizar as atividades logísticas, que, como se sabe, têm importância estratégica e são fundamentais para o sucesso das empresas modernas.

No entanto, e como já fartamente discutido, a ainda precária infraestrutura brasileira continuará forçando para cima os custos logísticos. E com custos altos, ou sem uma infraestrutura logística adequada, compromete-se o crescimento de qualquer país bem como o desempenho das empresas.

Num prazo mais longo, o crescimento econômico somente poderá ser mantido e sustentado quando as condições econômicas e sociais estimularem investimentos significativos em todos os setores, cujas carências mais se apresentam. E além dos itens educação, saúde e segurança, correta e justamente defendidos, há que se dar prioridade também aos investimentos em infraestrutura logística, pois quando isso não acontece, os resultados são conhecidos: dimensão irrisória, se comparada com o tamanho do país; matriz de transporte dependente demasiadamente do modal rodoviário; qualidade aquém das exigências mínimas; e altos custos.       

Nosso País está muito distante da realidade dos países desenvolvidos e mesmo de alguns emergentes, no que tange à sua infraestrutura logística e de transportes. Em prefácio do livro organizado por Armando Castelar e Cláudio Frischtak ¹, em 2014, o prof. Paulo Fleury, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e diretor do ILOS (Instituto de Logística e Supply Chain), comenta sobre o PAC (Plano de Aceleração do Crescimento): “Praticamente, nenhum projeto de grande porte pertencente ao PAC transporte entrou em operação”. Constata, ainda, que o PAC, lançado pelo governo federal há 7 anos, tem seus projetos de transporte, um atraso médio de 48 meses e um aumento nos custos médios, com relação ao orçado, de aproximadamente 75%. ¹ Editora FGV, “Gargalos e Soluções na Infraestrutura de Transportes”.

Por outro lado, declara o Dr. Clésio Andrade, presidente da CNT (Confederação Nacional do Transporte), na apresentação do Plano CNT de Transporte e Logística 2014: “passamos por décadas sem dispor da atenção necessária para a infraestrutura de transporte no Brasil, e a dificuldade gerencial dos governos para investir da forma que o país precisa culmina por agravar o quadro atual, que é desfavorável”. O plano apresenta 2.045 projetos para todos os modais de transporte, de forma integrada e sistêmica, e estima investimentos na casa de R$ 1 trilhão!

Estudo elaborado por técnicos da Universidade de São Paulo (USP) ², comentado pelo Valor Econômico em setembro de 2014, revela que há a necessidade de se investir R$ 1,1 trilhão em infraestrutura de transportes, até o ano 2030, como única forma de o Brasil melhorar sua competitividade. O Brasil precisaria investir, “para ser factível”, R$ 600 bilhões em rodovias, R$ 360 bilhões em ferrovias, R$ 85 bilhões em portos e R$ 33 bilhões nos aeroportos. ² “Infraestrutura de transportes no Brasil: aspectos que sugerem a necessidade de investimento privado no país”. Estudo coordenado pelo professor Claudio Tavares de Alencar, do núcleo de Real Estate da Escola Politécnica da USP.

Não é à toa, portanto, que o IMD (Índice de Competitividade Mundial) de 2013, coloca o Brasil na 51ª posição, sendo que em 2012 ocupava a 48ª. Estudos e pesquisas do Fórum Econômico Mundial ilustram de forma científica essa situação, pois dão conta de que o Brasil, dentre os 148 países considerados, ocupa a 114ª posição em termos de infraestrutura. O Banco Mundial, na publicação do Índice de Desempenho Logístico (LPI) de 2014, classifica o Brasil na posição 65, dentre 160 países analisados.

Ainda no Painel 2014 (“Pacto pela Infraestrutura Nacional e Eficiência Logística”), realizado pelo Instituto Besc – Humanidades e Economia, nas discussões sobre Governança Pública, ficou claro que é cada vez mais imperiosa a necessidade de se alcançar a melhoria da gestão e do correto direcionamento dos esforços e dos recursos públicos.  Além do que, é imprescindível definir os papéis institucionais dos diversos órgãos que discutem e “planejam” a infraestrutura logística e o transporte no país, como única forma de cortar o mal pela raiz, ou seja, de combater os entraves à modernidade. Entraves como a fragmentação dos núcleos de gerenciamento e decisão, de desconexão das políticas públicas em suas diversas esferas e destas com as demais áreas envolvidas, de politização dos cargos nas agências, ministérios e departamentos técnicos, de indefinições com respeito aos marcos legais e regulatórios; e de falta de políticas claras de investimentos e garantias, entre outros, precisam ser “tirados” da frente.

Mas é preciso mais, pois na medida em que a infraestrutura logística é um dos caminhos para a competitividade e a verdadeira aceleração do crescimento, ela deve ser tratada como prioridade de qualquer governo. É preciso agir e transformar planos e projetos em realidade. Aliás, como já defendido há tempos por todos nós que lidamos diariamente com a logística.